quinta-feira, junho 08, 2006

Afeição

Começando com o mais humilde e mais largamente difundido de todos os amores, o amor em que nossa experiência mais se aproxima daquela dos animais. Deixe-me acrescentar imediatamente que não lhe confiro um valor menor por causa disso.
Nada no homem piora ou melhora por ser partilhado com os animais. Quando culpamos um homem por não passar de um "simples animal", não queremos dizer que demonstre características animais (pois todos o fazemos) mas que só exibe essas, e apenas essas, nas ocasiões em que as atitudes especificamente humanas eram exigidas. (Quando o chamamos de "brutal", geralmente indicamos que comete crueldades impossíveis aos verdadeiros brutos; eles não têm a sagacidade necessária). Os gregos davam a este amor o nome de storge (duas sílabas). Vou chamá-lo aqui simplesmente de Afeição.
Meu léxico grego define storge como "Afeição", especialmente a dos pais pelos filhos; mas também a dos filhos pelos pais. E essa, não tenho dúvidas, é a forma original da coisa assim como o significado essencial da palavra.
A imagem inicial é a da mãe amamentando uma criança, uma cadela ou uma gata com uma cesta de filhotes; todos amontoados, empurrando-se e guinchando ou miando; lambidas, ronronar, tatibitate, leite, calor, o cheiro da vida jovem. A importância desta imagem é que ela nos apresenta logo no princípio uma espécie de paradoxo. A Necessidade e o amor-Necessidade dos recém-nascidos são óbvios; assim também o amor-Doação da mãe. Ela dá vida, dá o alimento, dá proteção. Por outro lado ela deve dar à luz ou morrer. Deve amamentar ou sofrer. Dessa forma, a sua Afeição é também um amor-Necessidade.
Vemos aí o paradoxo. Trata-se de um amor-Necessidade, mas o que ele precisa é dar. Trata-se de um amor-Doação, mas precisa ser necessitado. Teremos de voltar a este ponto. Mesmo na vida animal, e mais ainda na nossa, a Afeição se estende muito além da relação entre a mãe e a criança.
Este conforto que aquece, esta satisfação na proximidade, abrange toda sorte de objeto. Ele é na verdade o menos discriminatório dos amores. Existem mulheres que já prevemos terão poucos cortejadores e homens que provavelmente terão poucos amigos. Nada têm a oferecer. Mas quase todos podem tornar-se objeto de uma Afeição; os feios, os estúpidos e até os exasperantes. Não é necessário que exista qualquer afinidade aparente entre aqueles a quem une.
Já o vi manifestar-se em relação a um imbecil, não só por seus pais mas também por seus irmãos. Ele ignora as barreiras de idade, sexo, classe e educação. Pode existir entre um jovem universitário inteligente e uma velha enfermeira, embora suas mentes habitem mundos diversos. Ele ignora até mesmo a barreira das espé- cies. Nós o vemos não só entre cão e homem, mas também, surpreendentemente, entre cão e gato.
Gilbert White alega tê-lo descoberto entre um cavalo e uma galinha. Alguns dos novelistas apanharam bem esta idéia. Num livro bastante conhecido, os dois personagens estão tão lon- ge de unir-se por meio de qualquer comunhão de interesses e idéias que não podem conversar por dez minutos sem que surjam mal-entendidos; mas pode-se sentir que existe entre eles profunda afeição mútua.
O mesmo acontece com Don Quixote e Sancho Pança, Pickwick e Sam Weller, Dick Swiveller e a Marquesa. Do mesmo modo, embora sem intenção consciente do autor, no livro "The Wind in the Willows", o quarteto formado pela Toupeira, Rato, Texugo e Sapo sugere a surpreendente heterogeneidade possível entre aqueles que se acham ligados pela Afeição. A Afeição porém possui seus próprios critérios. Seus objetos precisam ser familiares. Podemos ás vezes precisar o dia e a hora exatos em que nos enamoramos ou começamos uma nova amizade, mas duvido que jamais saibamos quando começa uma afeição. Percebê-la é perceber que se achava presente há algum tempo. O uso da palavra "velho" como um termo afetuoso é significativo. O cão late para os estranhos que nunca lhe fizeram qualquer mal e sacode a cauda para os velhos conhecidos embora jamais lhe tenham feito qualquer bem.
A criança pode amar um velho jardineiro carrancudo que quase não nota sua presença e guardar distância do visitante que faz tudo para atraí-la. Mas é preciso que seja um "velho" jardineiro, alguém que "sempre" esteve ali - o curto mais imemorial "sempre" da infância. A Afeição como já disse é o amor mais humilde. Não se dá ares. As pessoas podem mostrar-se orgulhosas por estar enamoradas ou por causa de uma amizade. A Afeição é mo- desta - até mesmo tímida e envergonhada. Certa vez quan- do comentei sobre a afeição que se observa com freqüência entre cão e gato, um amigo replicou: "É verdade. Mas aposto que nenhum cão iria confessar isso a outro". Esse é pelo me- nos um bom exemplo de grande parte da afeição humana. "Os rostos feios devem ficar em casa", diz Comus, e a afeição tem um rosto bem pouco atraente. O mesmo acontece com muitos daqueles por quem temos esse sentimento. Não é uma prova de nosso refinamento ou discernimento o fato de as amarmos, nem o de que elas nos amam.
O que chamei de Amor Apreciativo não é um elemento básico da Afeição. No geral é necessária a ausência ou a morte para que passemos a louvar aqueles a quem somente a Afeição nos prende. Nós os tomamos por certos, e este sentimento, que seria uma afronta no amor erótico, é aqui correto e adequado até certo ponto. Encaixa-se na natureza confortável e tranqüila do sentimento. A afeição não seria afeição se fosse ostentosa e expres-sa com freqüência; produzi-la em público é o mesmo que tirar nossa mobília de casa para uma mudança. Ela parecia adequada no lugar em que estava, mas se nos afigura en- velhecida, espalhafatosa ou grotesca à luz do sol. A afeição quase que se esquiva ou se infiltra em nossa vida.
Ela faz parte das coisas privadas, humildes, como uma simples rou- pa de baixo. Chinelos macios, roupas velhas, velhas anedo- tas, o bater da cauda de um cachorro sonolento no chão da cozinha, o som da máquina de costura, uma boneca deixada no jardim. Devo porém corrigir-me imediatamente. Estou falando da Afeição como ela é quando isolada dos outros amores. Ela muitas vezes existe dessa forma; mas outras não. Como o gim não é uma bebida em si, mas também uma base para muitas misturas alcoólicas, a Afeição além de ser um amor em si mesma, pode penetrar os outros amores e colori-los inteiramente, tornando-se o próprio meio em que eles ope- ram dia a dia. Eles talvez não se dessem muito bem sem ela. Fazer um amigo não é o mesmo que tornar-se afeiçoado.
Mas quando seu amigo se torna um velho amigo, todas aquelas coisas nele que inicialmente nada tinham a ver com a amiza- de se tornam familiares e queridas com a familiaridade. Quanto ao amor erótico, não posso imaginar nada mais desagradável do que experimentá-lo por mais do que um breve período sem esta roupagem caseira da afeição. Seria uma condição muito constrangedora, demasiado angelical ou animada, cada uma por sua vez; jamais grande ou pe- quena o bastante para o homem. Existe sem dúvida uma atração peculiar, tanto na amizade como em Eros, naqueles momentos em que o Amor Apreciativo repousa, por assim dizer, adormecido, e o simples bem-estar e hábito do rela- cionamento (livre como a solidão, embora nenhum esteja sozinho) nos envolvem.
Não há necessidade de palavras. Não há necessidade de fazer amor. Necessidade alguma, de nenhum modo, exceto talvez de atiçar o fogo. Esta mescla e sobreposição dos amores é mantida diante de nós pelo fato de que na maioria das épocas e lugares, os três tiveram em comum, como sua manifestação, o beijo.
Na Inglaterra moderna a amizade não faz mais uso dele, mas a Afeição e Eros o fazem. Pertence de tal modo aos dois que não podemos dizer quem o tomou de empréstimo ao outro, ou se houve na verdade empréstimo. Você pode mes- mo dizer que o beijo da Afeição difere do de Eros. E verdade, mas nem todos os beijos entre amantes são beijos eróticos. Ambos esses amores tendem, outrossim, a usar uma "lin- guagem própria" ou "fala infantil" (e isso embaraça o homem moderno). Não sendo isto peculiar à espécie humana.
O Professor Lorenz nos contou que na época do acasalamento das gralhas os chamados entre elas "consistem principalmente de sons infantis reservados pelas aves adultas para essas ocasiões" (King Solomon’s Ring, pág. 158).
Nós e os pássaros temos a mesma desculpa. Diferentes tipos de ternura são todos ternura e a linguagem da primeira ternura que co- nhecemos é repetida a fim de tomar o lugar da nova. Um dos mais notáveis subprodutos da Afeição não foi ainda mencionado. Afirmei não tratar-se em primeiro lugar de um Amor Apreciativo. Ele não é discriminatório. Pode "acomodar-se" com as pessoas menos prometedoras. Todavia, por mais estranho que pareça, justamente este fato sig- nifica que em análise final ele pode tornar possíveis aquelas apreciações que talvez jamais existissem sem o mesmo.
Podemos dizer, e com certa dose de verdade, que escolhemos nossos amigos e a mulher que amamos pelas suas várias qualidades beleza, franqueza, bondade, inteligência, sagacidade, etc. Mas era necessário que fosse uma certa qualidade de inteligência, de beleza, de bondade que apreciamos, e temos nosso gosto pessoal nesses aspectos. Essa a razão pela qual amigos e amantes sentem que foram feitos "um para o outro". A glória especial da Afeição é que ela pode unir aque- les que mais enfaticamente, e até de maneira cômica, não o foram; pessoas que se não tivessem sido colocadas pelo destino na mesma casa ou comunidade, não teriam nada a ver uma com a outra. Se por causa disso surge uma Afeição naturalmente com freqüência não acontece isso - os olhos começam a abrir-se.
Quando passo a gostar de "fulano", a princípio porque ele acontece estar ali, começo então a ver que "existe algo de bom nele" no final de contas. No momento em que alguém diz, com sinceridade, que embora não seja "do meu tipo" ele é um bom sujeito "a seu modo" é um momento de libertação. Não sentimos isso, mas podemos apenas sentir-nos tolerantes e indulgentes. Entretanto, na verdade, acabamos de cruzar uma fronteira. Aquele "a seu modo" indica que estamos superando as nossas idiossincrasias, que estamos aprendendo a apreciar a bondade e a inteligência por si mesmas, e não simplesmente bondade e inteligência temperadas e servidas para agradar apenas ao nosso paladar. "Cães e gatos deviam ser sempre criados juntos", disse alguém, "isso ajuda a alargar a mente deles." A Afeição alarga a nossa.
De todos os amores naturais é o mais universal, menos afetado, mais amplo. As pessoas com quem você entra em contato na família, na escola, no restaurante, no navio, na casa religiosa, são deste ponto de vista um círcu- lo mais amplo do que os amigos, por mais numerosos, que você fez no mundo exterior. Pelo fato de ter muitos amigos não provo possuir uma ampla apreciação da excelência hu- mana. Você poderia igualmente dizer que provo a amplitude de meu gosto literário por gostar de todos os livros de mi- nha biblioteca. A resposta é a mesma em ambos os casos: "Você escolheu esses livros. Você escolheu esses amigos. É natural que lhe agradem".
O gosto verdadeiramente am- plo na leitura é aquele que capacita o homem a descobrir algo que supra as suas necessidades na banca de saldos de qualquer livraria onde se vendam livros de segunda-mão. A apreciação verdadeiramente ampla pela humanidade irá igualmente encontrar algo de que gostar em qualquer grupo representativo da mesma que venha a encontrar diariamente.
Em minha experiência é a Afeição que cria este gosto, ensinando-nos primeiro a notar, depois a tolerar, a sorrir, a gostar e finalmente a apreciar as pessoas que "acontece estarem ali". Feitas para nós? Graças a Deus, não. São elas mesmas, mais estranhas do que teria acreditado e valendo muito mais do que pensávamos.
Aproximamo-nos agora do ponto perigoso. A Afeição, disse eu, não se dá ares; a caridade, disse Paulo, não se ensoberbece. A afeição pode amar os que não possuem atrativos; Deus e seus santos amam os que não são dignos de amor. A Afeição "não espera demasiado, fecha os olhos para as faltas, renova-se facilmente depois das discussões; a caridade também é longânime, é bondosa e perdoa.
A Afeição abre nossos olhos para a bondade que não teríamos visto nem apreciado não fosse por causa dela. O mesmo acontece com a santidade humilde. Se nos limitássemos exclusivamente a essas semelhanças poderíamos ser levados a crer que a Afeição não é simplesmente um dos amores naturais mas o próprio Amor operando em nossos corações humanos e cumprindo a lei. Estariam os novelistas vitorianos certos no final de contas? O amor (desta espécie) é na verdade suficiente? As "afeições domésticas", quando desenvolvidas num grau elevado e pleno, se identificam com a vida cristã? A resposta para todas essas perguntas é um redondo "não".
Não me refiro simplesmente ao fato de esses novelistas terem algumas vezes escrito como se jamais tivessem ou- vido falar do texto sobre "odiar" esposa e mãe e também a própria vida. Isso é naturalmente verdade. A rivalidade entre todos os amores naturais e o amor de Deus é algo que os cristãos não ousam esquecer. Deus é o grande Rival, o supre- mo objeto da inveja humana; aquela beleza, terrível como a de Górgona, que pode a qualquer momento roubar de mim (ou que a meu ver é um roubo) o coração da esposa, marido ou filha.
A amargura da incredulidade de alguns, embora disfarçada até mesmo daqueles que a sentem em anti-clericalismo ou ódio da superstição, é na realidade devida a isso. Não estou porém pensando no momento nessa rivalidade; teremos de enfrentá-la mais adiante. Nosso assunto presente é mais "terreno". Quantos desses "lares felizes" realmente existem? Pior ainda, os infelizes são infelizes por falta de Afeição? Penso não ser assim. Ela pode estar presente, causando a infelicidade.
Quase todas as características deste amor são ambivalentes. Podem tanto trabalhar para o bem como para o mal. Por si mesma, seguindo as suas próprias inclinações, ela pode turvar e degradar a vida humana. Os desiludidos e não- sentimentais não disseram toda a verdade sobre ela, mas tudo o que disseram é fato. Um sintoma disto talvez seja a odiosidade de quase todas aquelas melodias e poemas ado- cicados em que a arte popular expressa Afeição. São odiosos devido à sua falsidade, representando como uma receita já pronta para a felicidade (e até para a bondade) o que não passa apenas de uma oportunidade. Não existe qualquer insinuação de que teremos de fazer algo: basta permitir que a Afeição se derrame sobre nós como um banho de chuveiro morno e tudo, fica implícito, estará bem.
A afeição, como vimos, inclui tanto o amor-Necessidade como o amor-Doação. Começo com a Necessidade, o desejo de ganhar a Afeição de outros. Vejamos agora uma razão clara porque este anseio, dentre todas as ambições humanas, facilmente se mostra o menos razoável. Já afirmei que quase todo mundo pode tornar-se um objeto de Afeição. E verdade, e quase todos esperam isso. O ilustre Sr. Pontifex no livro "The Way of all Flesh" fica zangado ao descobrir que seu filho não lhe tem amor; "não é natural" que um rapaz não ame seu próprio pai. Jamais lhe ocorreu perguntar, desde o primeiro dia de que o filho pode lembrar-se, se ele fez ou disse alguma coisa que pudesse gerar amor. Da mesma forma, no início do livro King Lear o herói é apresentado como um velho bem pouco digno de amor e devorado por uma enorme sede de Afeição.
Sinto-me impelido a fazer uso de exemplos literários porque você, o leitor, e eu, não vivemos na mesma vizinhança; se vivêssemos, não haveria infelizmente dificuldade em substitui-los por exemplos extraídos da vida real. Isso acontece todos os dias, e podemos ver porque. Todos sabemos que é preciso fazer algo, se não para merecer, pelo menos para atrair, o amor erótico ou a amizade. Mas a Afeição é no geral tida como sendo provida, já pronta, pela natureza; "embuti- da", "imposta", "por conta da casa".
Temos o direito de esperá-la. Se os outros não a derem são "anti-naturais". Esta suposição é sem dúvida a distorção de uma verdade. Muito foi "embutido". Por sermos da classe dos mamíferos, o instinto proverá, pelo menos um certo ponto, no geral bastan- te elevado, de amor maternal. Por sermos uma espécie social, a associação familiar proverá um ambiente em que, se tudo correr bem, a Afeição surgirá e se fortalecerá sem exigir qua- lidades brilhantes de seus objetos. Se nos for dada não será necessariamente concedida em proporção aos nossos méritos; talvez a obtenhamos sem grande dificuldade.
De uma percepção indistinta da verdade (muitos são amados com Afeição muito superior aos seus méritos) o Sr. Pontifex tira a ridícula conclusão: "Portanto eu, mesmo sem merecer, tenho direito a ela". Seria o mesmo que se, num plano muito superior, nós argumentássemos que pelo fato de homem algum ter direito merecido à Graça de Deus, eu, que não tenho mérito, tenho direito a ela. Não existe questão de direitos em qualquer dos casos. O que temos não é o "direito de esperar" mas uma "esperança razoável" de sermos amados pelos nossos íntimos se nós, e eles, formos pessoas mais ou menos comuns.Talvez, porém, não sejamos. E possível que sejamos intoleráveis. Se assim for a "natureza" trabalhará contra nós. Pois as mesmas condições de intimidade que tornam possível a Afeição também tornam possível - não menos naturalmente uma repulsa peculiarmente incurável; um ódio tão imemorial, constante, e quase inconsciente, como a forma correspondente de amor.
Siegfried, na época, não podia lembrar-se de época alguma em que cada um dos resmungos, movimentos impacientes e o arrastar dos pés do seu enfezado pai adotivo não lhe fossem odiosos. Nós não percebemos este tipo de ódio, assim como de Afeição, no momento em que se inicia. Estavam sempre ali antes. Note que velho tanto um termo de ódio desgastado como de carinho: "com seus velhos truques", "do seu velho modo," "a mesma velha coisa". Seria absurdo dizer que falta Afeição ao rei Lear.
No que diz respeito à Afeição ser amor-Necessidade ele está meio louco com esse sentimento. A não ser que, à sua maneira, ele amasse suas filhas, não desejaria tão desesperadamente o amor delas. Os pais menos dignos de amor (assim como os filhos) podem estar cheios desse amor faminto. Mas ele opera em seu próprio detrimento e no de outros. A situação se torna sufocante. Se as pessoas já são indignas de amor, uma exigência contínua da parte delas (como se de direito) para serem amadas -seu senso manifesto de injúria, suas censuras, quer em voz alta e clamorosas ou simplesmente implícitas em cada olhar e cada gesto de auto-piedade ressentida- produzem em nós uma sensação de culpa (sendo essa a sua intenção) por uma falta que não poderíamos ter evitado e não deixaremos de cometer. Elas selam a própria fonte em que desejam beber.
Se algum dia, em algum momento favorável, qualquer germe de Afeição pelas mesmas despertar em nós, sua exigência crescente nos petrifica de novo. E, como é natural, tais in- divíduos sempre desejam a mesma’ prova de nosso amor; devemos colocar-nos do seu lado, ouvir e partilhar toda a sua queixa contra alguém mais. Se meu filho realmente me amasse ele veria como seu pai é egoísta... se meu irmão me amasse tomaria meu partido contra minha irmã... se você me amasse não permitiria que fosse tratado deste modo. E o tempo todo eles não percebem onde se acha o ca- minho certo. "Se quer ser amado, seja digno de amor", disse Ovídio. Aquele velho e alegre réprobo queria dizer apenas: "Se quer atrair as garotas, seja atraente", mas a sua máxima tem uma aplicação mais ampla. O galanteador era mais sá- bio em sua geração do que o Sr. Pontifex e o rei Lear.
O que realmente surpreende não é que essas exigências insaciáveis feitas por essas pessoas que não atraem amor sejam feitas algumas vezes em vão, mas que com freqüência elas sejam satisfeitas. Vemos às vezes uma mulher que passou toda a infância, juventude, idade adulta, até quase a velhice, cuidando, obedecendo, acarinhando e talvez sustentando uma mãe exploradora, que nunca pode ser acariciada nem obedecida o suficiente. O sacrifício - existem porém duas opiniões a respeito - pode ser belo; mas a velha mulher que o exige não tem beleza alguma. O caráter "embutido" ou não-merecido da Afeição, é então um convite a um medonho mal-entendido.
Assim também a sua despreocupação e informalidade. Ouvimos falar muito dos modos grosseiros da nova geração. Eu sou um velhote e poderia tomar o lado dos mais velhos, mas de fato me impressiono muito mais com os maus tratos dos pais em relação aos filhos do que com a atitude contrária. Quem já não ficou constrangido ao participar de uma refeição em família onde o pai ou a mãe trataram o filho crescido com uma incivilidade tal que se fosse aplicada a qualquer outro jovem teria terminado o relacionamento? Afirmativas dogmáticas sobre assuntos que os filhos entendem e não os mais velhos, interrupções rudes, contradições manifestas, ridicularizar coisas que os jovens levam a sério - algumas vezes a religião deles - referências insultuosas a seus amigos tudo isso fornece uma resposta à pergunta: "Por que estão sempre fora de casa? Por que gostam multo mais da casa dos outros que da sua?" Quem não prefere a civilidade ao barbarismo? Se você perguntasse a uma dessas pessoas intoleráveis - nem todas são pais, naturalmente - porque se comporta- vam dessa forma em casa, responderiam: "Oh, diabos me carreguem, entro em casa para descansar. Ninguém pode ser bem educado todo tempo.
Se um homem não pode ser ele mesmo dentro de casa, onde poderá? Claro que não exigimos maneiras formais quando estamos em família. Somos felizes. Podemos dizer qualquer coisa uns aos outros. Ninguém se importa. Todos somos compreensivos.". Mais uma vez isso está tão perto. da verdade e ao mesmo tempo tão fatalmente errado.
A Afeição é algo ligado a roupas velhas, conforto, momentos descuidados, liberdades que seriam descorteses se tomadas com um estranho. Mas roupas velhas são uma coisa, e usar a mesma camisa até cheirar mal seria outra muito diferente. Existem trajes adequados para uma festa, mas as roupas de casa devem ser também apropriadas, embora diferentes. Assim também existe uma distinção entre a cortesia pública e a doméstica.
O princípio em que ambas se baseiam é o mesmo: "que ninguém dê preferência a si mesmo". Mas quanto mais pública a ocasião, tanto mais nossa obediência a este princípio tem sido formalizada. Existem "regras" de etiqueta. Quanto mais íntima a ocasião, tanto menores as formalidades; não sendo porém menor a necessidade de cortesia. Pelo contrário, a Afeição em sua melhor forma pratica um tipo de cortesia incomparavelmente mais sutil, sensível e profundo do que o público.
Em público um ritual serviria. Em casa é preciso que haja a realidade representada por esse ritual, ou então veremos o triunfo estrondoso do maior egoísta. Você não deve de modo algum favorecer a si mesmo; na festa basta ocultar a preferência. Surgiu daí o velho provérbio "venha viver comigo para conhecer-me". As maneiras do indivíduo em família revelam em primeira mão o verdadeiro valor de seu compor- tamento em "Sociedade" ou "de Festa".
Os que deixam suas boas maneiras para trás quando entram em casa, ao sair de urna festa ou reunião, na verdade não eram corteses nem ali, pois simplesmente imitavam os que sabiam comportar-se. "Podemos dizer qualquer coisa uns para os outros." A verdade subjacente é que a Afeição em sua melhor forma pode dizer o que a Afeição em sua melhor forma quer dizer, sem levar em conta as regras que governam a etiqueta em público, pois a Afeição em sua melhor forma não deseja nem ferir, nem humilhar, nem dominar.
Você pode chamar a esposa de seu coração de "Esponja!" quando ela toma inadver- tidamente tanto o seu drinque como o dela. Pode caçoar da história que seu pai vem contando repetidamente. Pode ar- reliar, pregar peças e provocar. Pode até dizer: "Cale a boca, agora quero ler". Pode fazer tudo com o tom de voz certo e na hora oportuna o tom e o momento que não irão ferir nem têm essa intenção. Quanto melhor a Afeição tanto mais saberá quais são eles (todo amor tem a sua arte de amar). Mas o tipo em questão está querendo dizer algo multo diferente quando reivindica liberdade para dizer "tudo".
Por ter uma espécie de Afeição muito imperfeita, ou talvez nenhuma naquele momento, ele se arroga o direito de tomar liberdades que apenas a Afeição mais completa pode reclamar ou sabe como controlar. Faz então uso delas maliciosamente em obediência aos seus res- sentimentos; ou desapiedadamente segundo o seu egoísmo; ou pelo menos estupidamente, pois lhe falta a arte neces- sária. E todo o tempo sua consciência se mantém tranqüila. Ele sabe que a Afeição toma liberdades. Ele toma liberdades. Portanto (conclui), está sendo afetuoso. Ressinta-se de qual- quer coisa e lhe dirá que a imperfeição no amor está do seu lado. Fica ferido. Sente-se incompreendido. Vinga-se então, mantendo-se à distância e afetando uma atitude de exagerada "polidez".
A implicação é naturalmente esta: "Há! não somos então íntimos? Devemos comportar-nos como simples conhecidos? Eu esperava... mas não tem impor- tância. Faça como quiser". Isto ilustra muito bem a diferença entre a cortesia íntima e a informal. O que se adapta perfei- tamente a uma pode ser uma infração da outra. Mostrar-se à vontade e íntimo quando apresentado a uma pessoa estranha e importante é uma quebra de etiqueta; praticar em casa maneiras formais ("maneiras públicas em lugares privados") é - e sempre pretendeu ser - falta de boas maneiras.
Encontramos um delicioso exemplo de boas maneiras domésti- cas no livro Tristram Shandy. Num momento singularmente inoportuno o Tio Toby se põe a falar de seu tema favorito: a fortificação. "Meu Pai", perdendo pela primeira vez a calma, interrompe violentamente; mas, a seguir, vê a face do irmão; a fisionomia indefesa de Toby, profundamente ferido, não por ter sido desdenhado, jamais pensaria nisso, mas pelo desprezo à nobre arte. Meu Pai se arrepende na hora, desculpando- se, e acontece uma reconciliação total. O Tio Toby, para mostrar quão completo é o seu perdão, e que não vai esconder-se por trás de sua dignidade ferida, retorna calmamente à sua palestra sobre as fortificações.
Não tocamos porém ainda nos ciúmes. Suponho que ninguém mais acredita que os ciúmes estão especialmente ligados ao amor erótico. Se alguém ainda crer nisso, o com- portamento das crianças, dos empregados e dos animais domésticos, logo irá tirar-lhe essa ilusão. Toda espécie de amor, quase todo tipo de associação, está sujeita a eles. Os ciúmes da Afeição se acham ligados de perto com a sua confiança no que é antigo e familiar. O mesmo se dá com a indiferença total ou relativa pela Afeição por parte do que chamo amor Apreciativo. não queremos que as "velhas fisionomias familiares" se tornem mais alegres ou mais belas, as velhas maneiras mudem para outras melhores, as velhas brincadeiras e interesses sejam substituídos por novidades excitantes.
A mudança é uma ameaça para a Afeição. Um irmão e uma irmã, ou dois irmãos - pois o sexo aqui não opera - crescem até uma certa idade partilhando tudo. Eles leram as mesmas revistas em quadrinhos, subi- ram nas mesmas árvores, foram juntos homens do espaço ou piratas, começaram e abandonaram no mesmo momento as coleções de selos. Então acontece uma coisa horrível. Um deles se distancia - descobre a poesia ou a ciência, a música erudita, ou talvez sofre uma conversão religiosa. Sua vida se enche com o novo interesse. O outro não pode partilhar da nova vida do irmão, ficando para trás.
Duvido que até mesmo a infidelidade de uma esposa ou marido provoque uma sensação mais desagradável de abandono ou uma inveja mais forte do que uma situação assim pode causar. não se trata ainda de ciúmes dos novos amigos que o desertor irá logo fazer. Isso virá mais tarde. O ciúme a princípio é da coisa em si - da ciência, da música, de Deus (sempre chamado de "religião" ou "toda essa religião" em tais contextos).
O ciúme irá provavelmente expressar-se através de zombarias. O novo interesse é "tudo bobagem", desprezivelmente infantil (ou desprezivelmente adulto), ou também o desertor não tem na verdade um interesse real - está apenas se mostrando, se exibindo. Tudo não passa de afetação. Logo mais os livros sairão de vista, os espécimes científicos serão destruídos, o rádio desligado na hora dos programas de música clássica; pois a Afeição é o mais instintivo e, nesse sentido o mais animal, dentre os amores, e o seu ciúme é feroz nessa mesma proporção.
Ele rosna e mostra os dentes como um cão de quem tiraram a comida. E por que não agir assim? Algo ou alguém roubou da criança que estou descrevendo seu sustento, seu segundo eu. O seu mundo desmoronou. Não são porém apenas as crianças que reagem desse modo. Poucas coisas na vida rotineira de um país civilizado são mais demoníacas do que o rancor com que uma família de incrédulos se volta contra um de seus membros que se torna cristão, ou a família de pouca cultura contra aquele dentre os seus que mostra sinais de tornar-se intelectual. não se trata, como cheguei a pensar, do ódio inato e, por assim dizer, desinteressado da escuridão pela luz.
Uma família fiel que perde um de seus membros para o ateísmo nem sempre irá comportar-se melhor. E a reação comum a um abandono, a um roubo. Alguém ou algo roubou "nosso" filho ou filha. Aquele que era um de nós tornou-se um deles. Que direito tinha alguém de fazer isso? Ele é nosso. Mas uma vez iniciada a mudança nesse sentido, quem sabe onde irá parar? (E nós tão contentes e acomodados antes e não fazen- do nada para prejudicar ninguém!) Outras vezes surge um ciúme dobrado, ou seja dois ci- úmes inconsistentes que se sucedem um ao outro na mente do sofredor. De um lado a idéia: "Tudo isso é tolice, boba- gem completa, pura tapeação". Mas de outro: "Suponhamos - não pode ser, não deve ser - mas suponhamos que exista alguma verdade nisso tudo?"
Suponhamos que houvesse mesmo algo na literatura ou no cristianismo? E se o desertor tivesse realmente entrado num novo mundo que o restante de nós jamais tivesse suspeitado? Se for assim, que injustiça! Por que ele? Por que essa porta não se abriu para nós? "Uma menininha dessas, um rapaz insignificante como esse - alcançando oportunidades negadas a seus maiores?" E como isso é claramente incrível e insuportável, a inveja volta à hipótese: Tudo não passa de tolice". Os pais nesta situação acham-se muito melhor equipados para enfrentá-la do que os irmãos e irmãs. Os filhos não conhecem o seu passado. Qualquer que seja o novo mundo do desertor, podem sempre alegar que já passaram por ele e saíram do outro lado. "não é mais do que uma fase", dizem eles, "vai passar". Nada poderia ser mais satisfatório. E uma declaração sobre o futuro que não pode ser então refutada. Ela fere, mas por ser dita com tanta indulgência fica difícil ressentir-se da mesma. Mais ainda, os mais velhos parecem realmente crer nela, e pode finalmente resultar verdadeira; não sendo culpa deles se isso não acontecer. "Menino, essas suas loucuras vão quebrar o coração de sua mãe." Esse apelo eminentemente vitoriano pode ter sido no geral verdadeiro.
A Afeição ficava profundamente ferida quando um dos membros da família saía do caminho conhe- cido para algo pior - jogo, bebida, mulheres. Infelizmente é, da mesma forma, possível quebrar o coração da mãe por superar o ethos doméstico. A tenacidade conservadora da Afeição opera dos dois lados. Pode ser equivalente àquele tipo de educação suicida que refreia a criança promissora porque os vadios e estúpidos poderiam ficar "feridos" se ela passasse para uma classe mais adiantada. Todas essas perversões da Afeição estão principalmente ligadas à mesma como um amor-Necessidade, embora como amor-Doação ela tenha também as suas perversões.
Estou pensando na Sra. Fidget que morreu há alguns meses. E realmente assombroso como a sua família melhorou. O ar sombrio desapareceu do rosto do marido dela, e ele começou a aprender a rir. O filho mais novo que sempre julguei uma criatura amarga, rabugenta, tem-se mostrado muito humano. O mais velho que nunca estava em casa se- não para dormir, pode ser visto quase sempre ali e começou a lidar no jardim. A filha, sempre tida como "delicada" (em-bora eu nunca chegasse a saber por que razão), está tendo agora as lições de equitação que lhe foram proibidas, dança a noite inteira e joga tênis à vontade. Até o cachorro que jamais saía exceto na corrente, é hoje um membro conhecido do Clube dos Postes na rua deles.
A Sra. Fidget dizia com freqüência que vivia para a família e isso era verdade. Todos na vizinhança sabiam disso. "Ela vive para a sua família", diziam, "que exemplo de espo- sa e mãe!" Lavava toda a roupa, embora mal lavada; como tinham recursos para chamar uma lavadeira, repetidamente lhe pediam para não fazer isso, mas em vão. Havia sempre almoço quente para quem estivesse em casa e uma refeição quente à noite (mesmo no verão). Eles imploravam que abandonasse esse hábito (protestavam quase com lágrimas nos olhos, dizendo que preferiam comida fria. E estavam falando a verdade). Mas de nada valiam os protestos. Ela sempre ficava acordada para dar as "boas vindas" a quem chegava tarde; duas ou três da manhã, não fazia diferença. Você sempre encontrava aquela fisionomia frágil, pálida e cansada à sua espera, como uma acusação silenciosa.
O que significava naturalmente que não lhe era possível sair com muita freqüência, em nome da decência. Também estava sempre fazendo coisas, sendo em sua própria opinião (não posso ser juiz nisso) uma perita costureira amadora e grande tricoteira. A não ser que você fosse um bruto sem coração precisava usar essas coisas. (O vigário me contou que depois de sua morte, as contribuições feitas pela família para os "bazares de caridade" em matéria de roupas superaram as de todos os outros paroquianos juntos). E os cuidados com a saúde deles! Era ela quem carregava todo o peso da "delicadeza" da filha. O médico - uni amigo antigo, pois os gastos não eram feitos através de qualquer convênio de saúde - jamais teve permissão para discutir o assunto com a paciente. Depois de examiná-la sumariamente, era levado a um outro aposento pela mãe. A menina não podia ter preocupações, nenhuma responsabilidade pela sua saúde.
Só cuidados cheios de amor, carícias, comidas especiais, vinhos tônicos repugnantes e café na cama. Pois a Sra. Fidget, como afirmava repetidamente, "se mataria" pela família. Ninguém podia impedi-la. Eles também não podiam, sendo pessoas decentes, ficar sentados observando. Tinham de ajudar. Na verdade estavam sempre tendo de ajudar. Isto é, faziam coisas que a auxiliassem a ajudá-los, coisas que não queriam que fossem feitas. Quanto ao querido cachorro, era para ela, como dizia, como um dos filhos. E ele era de fato como um deles, na medida em que ela conseguia faze-lo conformar-se, mas como ele não tinha escrúpulos saía-se melhor do que os demais e embora vacinado, alimentado e confinado ao máximo ele conseguia às vezes chegar até a lata de lixo ou até o cachorro do vizinho.
O vigário disse que a Sra. Fidget repousa agora em paz. Esperemos que sim. O que é certo é que sua família está em paz. E fácil ver como a sujeição a este estado é, por assim dizer, congênita no instinto maternal. Como vimos, este é um amor-Doação, mas que precisa ser dado; portanto, precisa ser necessitado. Entretanto, o objetivo adequado da dádiva é colocar o recipiente numa condição tal que ele não mais necessite de nossa doação. Alimentamos as crianças a fim de que logo possam comer sozinhas. Nós as ensinamos para que dentro em breve possam prescindir desse ensino.
Um fardo pesado é então imposto a este amor-Doação. Ele deve trabalhar no sentido de sua própria abdicação. Nosso alvo é nos tornar supérfluos. A hora em que pudermos dizer "não precisam mais de mim" é a nossa recompensa. Mas o instinto, por si só, não tem poder para cumprir esta lei. O instinto deseja o bem do seu objeto, mas não simplesmente isso; apenas o bem que ele pode dar. Um amor mais subli- me, aquele que deseja o bem do objeto em si, qualquer seja a fonte desse bem, deve interferir ou domesticar o instinto antes que ele possa abdicar. E, como é lógico, ele sempre o faz. Mas quando isso não acontece, a voraz necessidade de ser necessário irá gratificar-se, seja mantendo o objeto em estado de carência permanente ou inventando para ele necessidades imaginárias. E isso é feito mais impiedosamente ainda porque julga (e de. um certo modo com razão) ser um amor-Doação e portanto se considera "desinteressado, ge- neroso". Não são só as mães que podem fazer isto.
Todas aquelas outras Afeições que, seja por derivação do instinto paternal ou por semelhança de função, precisam ser necessárias, podem cair na mesma armadilha. A Afeição do patrono pelo protegido é uma delas.
Na novela de Jane Austen, Ema quer que Harriet Smith tenha uma vida feliz; mas apenas o tipo de felicidade que a própria Ema planejou para ela. A minha profissão - a de professor universitário - é perigosa neste sentido. Se somos bons devemos estar sempre trabalhando em direção ao momento em que nossos, alunos estejam preparados para tornar-se nossos críticos e rivais. Devemos ficar satisfeitos quando esse momento chegar, como o mestre de esgrima fica feliz quando seu aluno consegue desarmá-lo. E muitos ficam mesmo. Mas nem todos.
Tenho idade bastante para lembrar-me da triste história do Dr. Quartz. Nenhuma universidade tinha um professor mais eficiente e dedicado. Ele se entregava inteiro a seus alunos, deixando em quase todos eles uma lem- brança indelével, sendo objeto de bem merecida veneração por parte dos mesmos. Como é natural, eles continuavam a visitá-lo alegremente mesmo depois de terminada a sua relação de mestre e aluno. Faziam-lhe visitas à noite e tinham com ele interessantíssimas discussões. Mas, coisa curiosa, este relacionamento nunca durava. Mais cedo ou mais tarde - poderia ser dentro de alguns meses ou poucas semanas - chegava a noite fatal em que batiam à sua porta, sendo informados de que o Doutor estava ocupado. Depois disso ele nunca mais os recebia, banindo-os por completo.
Isto acontecia porque no último encontro se mostravam rebeldes, afirmando sua independência, contradizendo o mestre e sustentando seu ponto de vista, talvez sem êxito. Ao enfrentar aquela independência que ele havia trabalhado para produzir e que era seu dever produzir caso possível, o Dr. Quartz não podia suportá-la.
Wotan se esforçara para criar um Siegfried livre, mas ao ver-se frente a frente com ele, perdeu a calma. O Dr. Quartz era um homem infeliz. Esta terrível necessidade de ser necessário com freqüéncia encontra a sua válvula de escape amimando um animal. Dizer que alguém "gosta de animais" revela muito pouco até que saibamos de que modo, pois existem dois deles. De um lado, o animal doméstico mais elevado é, por assim dizer, uma "ponte" entre nós e o resto da natureza. Todos nós sentimos às vezes nosso isolamento humano do mundo sub-humano.
A atrofia do instinto gerada pela nossa inteligência, o excesso de consciência de nossa própria pessoa, as inúmeras complexidades de nossa situação, nossa incapacidade de viver no presente. Se apenas pudéssemos atirar tudo para o alto! não podemos, e, incidentalmente, não podemos tornar-nos animais. Mas podemos estar com um deles. E bastante pessoal dar à palavra com um significado real; mas ela permanece em sua maior parte um aglomerado inconsciente de impulsos biológicos. Tem três pernas no mundo da natureza e uma no nosso. E um elo, um embaixador. Quem não gostaria, como afirma Bosanquet, "de ter um representante na corte de Pan"?
O homem com um cão fecha uma brecha no universo. Mas os animais são naturalmente usados de um modo mais negativo com freqüência. Se você precisa ser necessário e se sua família, muito adequadamente, se nega a fazer isso, um animal de estimação é o substituto óbvio. Você pode mante-lo a vida inteira dependente de sua pessoa. Pode mante-lo permanentemente infantil, reduzi-lo à invalidez permanente, impedi-lo de gozar de todo e qualquer conforto animal, e compensar isso criando necessidades para uma série enorme de pequenas indulgências que só você pode conceder.
A infeliz criatura se torna então muito útil para o restante da família. Ela funciona como um dreno você está ocupado demais estragando a vida de um cachorro para poder estragar a deles. Os cães são melhores para isso do que os gatos. O macaco, me disseram, é o melhor de todos, sendo também mais parecido com a coisa real. É certo que isso não é nada bom para o coitado do bicho, mas ele provavelmente não compreende a extensão do mal que você lhe faz. Melhor ain- da, você nunca saberia se ele compreendesse.
O ser humano mais pisado, quando chega ao final de sua resistência, pode um dia deixar escapar uma terrível verdade, mas os animais não falam. Os que dizem "quanto mais convivo com os homens mais gosto de cachorros" - os que encontram nos animais um alívio das exigências do convívio humano, devem ter o cuidado de analisar sua real motivação. Espero que não me compreendam mal. Se este capítulo levar alguém a duvidar que a falta de "Afeição" natural é uma extrema depravação, eu terei falhado. Também não questiono o fato de a Afeição ser responsável por nove décimos de toda felicidade sólida e durável em nossa vida natural.
Irei portanto simpatizar com aqueles cujo comentário sobre as últimas páginas for mais ou menos este: "Naturalmente. Essas coisas acontecem. As pessoas egoístas ou neuróticas têm o poder de torcer qualquer coisa, até o amor, transformando-a em miséria ou exploração. Mas, por que enfatizar esses casos doentios? Um pouco de bom senso, um pouco de reciprocidade, irá evitar sua ocorrência entre pessoas decentes".
Mas, em minha opinião, este comentário precisa ser comentado. Em primeiro lugar, o termo neurótico: não penso que veremos as coisas mais claramente se classificarmos todas essas condições maléficas da Afeição como patológicas. Existem sem dúvida condições patológicas que tornam difícil ou praticamente impossível resistir à tentação de agir dessa forma. Tais pessoas devem ser encaminhadas ao mé-ico o mais depressa possível. Mas acredito que quem for sincero consigo mesmo irá admitir que sentiu tais tentações. A sua ocorrência não é uma doença; ou, se for, o seu nome é Homem Decaído.
Nas pessoas comuns o fato de ceder a elas (e quem não cede às vezes) não é uma enfermidade, mas pecado. A orientação espiritual será de maior ajuda nesses casos do que o tratamento médico. A medicina se esforça para restaurar a estrutura "natural" ou a função "normal". Mas a cobiça, o egoísmo, o auto-engano e a auto-piedade não são inaturais ou anormais no mesmo sentido que o astigmatismo ou um rim flutuante. Pois quem, em nome do céu, poderia descrever como natural ou normal o homem que não possuísse tais falhas?
"Natural", se quiser, num sentido muito diverso; arquinatural, não-decaído. Só vimos um Homem assim. E Ele não; se adaptava de forma alguma à idéia do ci- dadão integrado, equilibrado, ajustado, feliz no casamento, empregado e popular, apresentada pelos psicólogos. Você não pode de modo algum ser muito bem "ajustado" ao seu mundo se lhe disserem que "tem demônio" e terminarem pregando-o nu numa estaca de madeira. Em segundo lugar, o comentário em sua própria linguagem admite exatamente aquilo que estou tentando dizer.
A Afeição produz felicidade se - e apenas se - houver bom senso, decência e reciprocidade. Em outras palavras, apenas se algo mais além da Afeição for acrescentado. O simples sentimento não basta. Você precisa de "senso comum", isto é, raciocínio. Precisa de "reciprocidade"; isto é, de justiça, estimulando continuamente a simples Afeição quando ela desaparece e restringindo-a quando se esquece ou quer desafiar a arte do amor.
Você precisa de "decência". não se pode disfarçar o fato de que isto significa bondade, paciên- cia, abnegação, humildade, e a intervenção contínua de um tipo mais elevado de amor do que a Afeição em si mesma ja- mais poderá ser. E isso é tudo. Se tentarmos viver pela Afeição ela irá mostrar-se como um sentimento negativo. Quão negativo, creio que raramente reconhecemos.
Será que a Sra. Fidget não percebia absolutamente as incontáveis frustrações e misérias que infligia à sua família? difícil de acreditar. Ela sabia muito bem. Também tinha plena noção que a noite de qualquer dos membros ficaria completamente estragada ao pensar que ao voltar para casa a encontraria à sua espera, ociosa, acusadoramente "acordada por sua causa"; mas continuava essas práticas porque se as deixasse teria de enfrentar a realidade que estava decidida a ignorar: saber que não era necessária.
Esse é o primeiro motivo. A própria operosidade da sua vida silenciava 25 dúvidas secretas quanto à qualidade do seu amor. Quanto mais seus pés queimavam e suas costas doíam, tanto melhor, pois esse sofrimento lhe sussurrava ao ouvido: "Como devo amá- los se faço tudo isso!" Esse o segundo motivo. Penso que existe um plano ainda inferior. A falta de apreciação por parte das pessoas, aquelas palavras terríveis, ofensivas - qualquer coisa "fere" uma Sra. Fidget - com que pediam que mandasse lavar fora a roupa, a capacitavam a sentir-se explorada, e portanto a manter-se constantemen- te queixosa, gozando os prazeres do ressentimento. Se al- guém disser que não conhece esses prazeres só pode estar mentindo ou é um santo.
Na verdade são prazeres apenas para os que sentem ódio. Mas um amor como o da Sra. Fidget contém uma boa dose de ódio. Foi com respeito ao amor erótico que o poeta romano declarou: "amo e odeio", mas outras espécies de amor admitem a mesma combinação de sentimentos. Trazem consigo as sementes do ódio. Se a Afeição Afeição tornar-se a soberana absoluta de uma vida as sementes germinarão. O amor, tornando-se deus, transforma-se em demônio.
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C. S. Lewis

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