terça-feira, junho 06, 2006

Amor-Doação, Amor-Necessidade

"Deus é amor", diz o apóstolo João. Quando tentei começar a escrever sobre os amores humanos, pensei que seu axioma iria fornecer-me um caminho plano através de todo o assunto. Estava certo de poder dizer que o amor humano só merecia ser as- sim chamado naquilo em que se assemelhava àquele Amor que é Deus.
A primeira distinção que fiz foi portanto entre o que chamei de amor-Doação e amor-Necessidade. O exemplo típico do amor-Doação seria aquele que leva o homem a trabalhar, planejar e poupar para o futuro de sua família, cujo futuro ele não irá ver nem partilhar com ela; do segundo, aquele que empurra a criança solitária ou amedrontada para os braços da mãe. Restava sem dúvida aquilo que se identificava ainda mais com o próprio Amor, O Pai dá ao Filho tudo o que Ele é e possui. O Filho se dá de volta ao Pai, e se entrega ao mundo, e pelo mundo ao Pai, dando assim o mundo (que está nele) também de volta ao Pai.
Por outro lado, o que pode assemelhar-se menos a qualquer coisa que possamos conceber a respeito da vida de Deus do que o amor-Necessidade? Nada lhe falta, mas nosso amor-Necessidade, conforme discernido por Platão, é "filho da pobreza".
Ele é o reflexo correto de nossa natureza real sobre o consciente. No momento em que tomamos plena consciência descobrimos a solidão. Temos necessidade de outros no plano físico, emocional e intelectual; precisamos deles se devemos conhecer algo, até a nós mesmos. Eu estava pretendendo escrever alguns elogios fáceis sobre o primeiro tipo de amor, depredando o segundo. E muito do que esperava escrever me parece ainda verdadeiro.
Continuo pensando que se tudo o que entendemos por amor é a ânsia de sermos amados, nossa condição é deplorável. Mas não diria agora (com meu mestre MacDonald) que se incluirmos apenas esse desejo, estaremos tomando por amor algo que não representa absolutamente esse sentimento. Não posso mais negar o nome de amor ao amor-Necessidade. Toda vez que tentei tirar deduções ao longo dessa linha de pensamento acabei encontrando enigmas e contradições. A realidade é mais complicada do que supunha.
Em primeiro lugar, violentamos quase todas as línguas se não dermos ao amor-Necessidade o nome de "amor". A língua não é naturalmente um guia infalível, mas ela contém, com todos os seus defeitos, uma boa dose de discernimento e experiência acumulados. Se você se puser a desconsiderá-la, ela tem um meio de vingar-se mais tarde. É melhor não imitarmos o personagem Humpty Dumpty que dava às palavras o significado que desejava.
Em segundo lugar, devemos ter cautela em dizer que o amor-Necessidade não passa de "simples egoísmo". Simples é sempre uma palavra perigosa. Não há dúvida de que o amor-Necessidade, como todos os nossos impulsos, pode ser egoisticamente tolerado. Uma exigência tirânica e gulo- sa de afeição é às vezes algo terrível.
Mas na vida comum ninguém chama de egoísta a criança que busca conforto na mãe; nem o adulto que procura "companhia" na pessoa de um amigo. Os que fazem isso em menor proporção, seja crianças ou adultos, não são geralmente os mais abnegados. Onde o amor-Necessidade é sentido, pode haver razões para negá-lo ou mortificá-lo; mas não senti-lo é no geral a marca do egoísta frio.
Desde que na verdade precisamos uns dos outros ("não é bom que o homem esteja só"), então o fato de este sentimento não surgir como amor-Necessidade no consciente (em outras palavras, o sentimento ilusório de que é bom para nós ficarmos sós) é um sintoma espiritual negativo, da mesma forma que a falta de apetite é um sintoma médico negativo porque os homens precisam de alimento.
Mas, em terceiro lugar, chegamos a um ponto muito mais importante. Todo cristão concordaria que a saúde espiritual do indivíduo é exatamente proporcional ao seu amor por Deus. Entretanto, o amor humano por Deus, pela própria natureza do mesmo, deve ser sempre em grande parte, e com freqüência inteiramente, um amor-Necessidade. Isto se evidencia quando pedimos perdão de nossos pecados ou apoio nas tribulações. Mas, de modo geral, fica talvez mais manifesto em nossa crescente percepção (pois deveria mesmo crescer) que nosso ser inteiro pela sua própria natureza é uma enorme necessidade; incompleto, preparatório, vazio, mas atravancado, clamando por Ele que pode desatar coisas que agora estão atadas e atar aquelas que ainda se acham soltas.
Não estou dizendo que o homem jamais possa dar a Deus qualquer outra coisa além do puro amor-Necessidade. As almas exaltadas podem falar-nos de um alcance além desse. Mas, segundo penso, elas seriam também as primeiras a nos dizer que essas alturas deixariam de ser verdadeiras Graças, tornando-se ilusões neoplatônicas ou finalmente diabólicas, no momento em que o indivíduo ousasse pensar que poderia viver delas e dai por diante abandonasse o ele- mento da necessidade.
"O mais elevado", diz a Imitação, "não permanece sem o mais humilde". Quão ousada e tola seria a criatura que se aproximasse de seu Criador, gabando-se: "Não sou um mendigo. Eu o amo desinteressadamente. Os que chegam mais perto de um amor-Doação por Deus, no momento seguinte, ou nesse mesmo momento, irão bater no peito como o publicano e depositar sua indigência diante do único e verdadeiro Doador. E Deus quer isso. Ele se dirige ao nosso amor-Necessidade: "Vinde a mim todos os que es- tais cansados e sobrecarregados", ou no Velho Testamento: "Abre a tua boca e eu a encherei". Assim sendo, o amor-Necessidade, o maior de todos, ou coincide ou pelo menos constitui um ingrediente principal na condição espiritual mais elevada, mais sadia e mais realista do indivíduo.
Segue-se um corolário muitíssimo estranho. O homem se aproxima mais de Deus quando, num certo sentido, ele se assemelha menos a Deus. Pois que diferença pode ser maior do que aquela que existe entre plenitude e necessidade, soberania e humildade, justiça e penitência, poder ilimitado e pedido de ajuda? Este paradoxo me espantou quando me defrontei pela primeira vez com ele; também destroçou todas as minhas tentativas anteriores de escrever sobre o amor. Quando nós o enfrentamos, algo semelhante parece resultar. Devemos distinguir duas coisas que possivelmente po- deriam ser chamadas de "proximidade de Deus".
Uma delas é semelhança com Deus. Deus imprimiu em tudo quanto fez uma certa semelhança com a sua Pessoa, é o que suponho. O espaço e o tempo, à sua própria maneira, refletem a sua grandeza; toda a espécie de vida, a sua fecundidade; a vida animal, sua atividade. O homem possui uma semelhança mais importante do que essas por ser racional. Os anjos, segundo creio, possuem uma semelhança que falta ao homem: imortalidade e conhecimento intuitivo. Dessa forma, todos os homens, bons ou maus, todos os anjos, incluindo os que caíram, são mais como Deus do que os animais.
Sua natureza está mais "próxima" neste sentido da natureza divina. Mas, a seguir, existe o que poderemos chamar de proximidade de abordagem. Isto é, as condições em que o homem fica "mais próximo" de Deus são aquelas em que ele está mais rápida e seguramente se aproximando de sua união final com Deus, sua visão de Deus e seu gozo de Deus. E tão logo façamos a distinção entre "proximidade por semelhança" e "proximida- de por abordagem", vemos que elas não coincidem necessa- riamente, podendo ou não fazê-lo. Uma analogia talvez venha a ser de auxílio. Vamos supor que estejamos subindo uma montanha até a vila em que mo-ramos. Ao meio-dia chegamos ao alto de um penhasco onde, no espaço, estamos muito próximos dela porque se encontra logo abaixo de nós. Poderíamos jogar uma pedra nela. Mas como não somos alpinistas não podemos descer. Precisamos dar uma longa volta, talvez de cinco quilômetros. Em muitos pontos desse desvio estaremos mais longe da vila do que quando nos achávamos em cima do penhasco.
Mas isso acontece apenas quando estamos parados. Em termos de progresso estaremos muito "mais próximos" de nossos banhos e nossos chás. Desde que Deus é abençoado, onipotente, soberano e criativo, existe evidentemente um sentido em que a felicidade, força, liberdade e fertilidade (quer de mente ou de corpo), onde quer que apareçam na vida humana, constituem semelhanças, e dessa forma, proximidade de Deus. Mas ninguém supõe que a posse desses dons tenha qualquer ligação necessária com a nossa santificação. Nenhuma espécie de riqueza é um passaporte para o reino dos céus. No alto do penhasco estamos perto da vila, mas por mais tempo que fiquemos ali sentados jamais nos aproximaremos de nosso banho e nosso chá. Aqui então a semelhança, e proximidade com Ele nesse sentido, que Deus conferiu a certas criaturas e certos estados dessas criaturas é algo acabado, embutido nelas.
O que está próximo dele pela semelhança jamais irá, só por isso, ficar de qualquer forma mais próximo. Mas a proximidade de abordagem, por definição, representa uma proximidade crescente. E enquanto a semelhança nos é dada - e pode ser recebida com ou sem um sentimento de gratidão, pode ser usada ou abusada a aproximação, embora iniciada e apoiada pela Graça, é algo que nos cabe fazer.
As criaturas, cada uma a seu modo, são feitas à imagem de Deus sem a sua colaboração pessoal ou sequer consentimento. Mas não é assim que se tornam filhos de Deus. E a semelhança que recebem pela filiação não é aquela das imagens e retratos. De certo modo é mais de semelhança, pois e concordância ou unidade com Deus na vontade; isto porém coincide com todas as diferenças que vimos considerando. Assim sendo, como um escritor melhor que eu afirmou, nossa imitação de Deus nesta vida isto é, nossa imitação voluntária, distinta de qualquer das semelhanças que ele imprimiu em nossa natureza ou estado - deve ser urna imitação do Deus encarnado: nosso modelo é o Jesus, não só o do Calvário, mas o da carpintaria, das estradas, das multidões, das exigências clamorosas e más disposições, da falta de paz e privacidade, das interrupções.
Pois isto, tão estranhamente diverso de tudo que possamos atribuir à vida divina em si, não tem semelhança apenas aparente, mas é a vida divina operando sob condições humanas. Devo agora explicar por que achei esta distinção necessária a qualquer tratamento que devesse dispensar ao nosso tipo de amor.
A declaração do apóstolo João de que Deus é amor foi comparada em minha mente ao comentário feito por um autor moderno (M. Denis de Rougemont) de que "o amor deixa de ser um demônio somente quando cessa de ser um deus"; cuja sentença pode naturalmente ser apresentada de outra forma: "começa a ser um demônio no momento em que começa a ser um deus".
Este equilíbrio me parece uma proteção indispensável. Se nós o ignoramos, a verdade que Deus é amor pode furtivamente vir a significar para nós o inverso, de que o amor é Deus. Suponho que todos os que pensaram no assunto verão o que M. de Rougemont queria dizer. Todo amor humano, em seu apogeu, possui a tendência de reivindicar uma autoridade divina. Sua voz tende a soar como se fosse a vontade do próprio Deus.
Ela nos diz para não contar o custo, exige de nós um compromisso total, tenta superar todas as outras reivindicações e insinua que todo ato feito sincera- mente "por causa do amor" é portanto legal e até meritório. Que o amor erótico e o amor patriótico tentam dessa forma "tornar-se deuses" é geralmente reconhecido. Mas a afeição familiar pode fazer o mesmo, assim como a amizade, embora de modo diverso.
Não vou demorar-me agora muito neste ponto, pois iremos defrontá-lo repetidamente nos capítulos que se seguem. É preciso notar que os amores naturais fazem esta reivindicação blasfema quando se acham em sua melhor e não em sua pior condição natural; quando são o que nossos avós chamavam de "puros" e "nobres".
Isto se evidencia especialmente na esfera erótica. Uma paixão fiel e genuinamente sacrificial irá falar-nos com o que parece ser a voz de Deus. A simples lascívia animal ou frívola não faz isso. Irá corromper os seus adeptos de mil maneiras, mas não desse modo. O indivíduo pode agir sob esse tipo de sentimento, mas não pode reverenciá-lo mais do que a pessoa que se coça presta reverência à coceira. A indulgência temporária de uma tola mulher, que é na verdade pura auto-indulgência, para com uma criança mimada, "a sua boneca do momento", tem muito menos probabilidade de "tornar-se um deus" do que a devoção profunda, estreita, de uma mulher que (realmente) "vive para seu filho".
Estou inclinado a pensar que a espécie de amor patriótico de alguém influenciado por bandas mi- litares e algumas cervejas não irão levá-lo a provocar muito mal (ou muito bem) por causa desse sentimento, pois ele irá ser provavelmente esquecido ao pedir uma outra garrafa e juntar-se ao coro. Naturalmente devemos esperar tal coisa. Nossos amores não reivindicam divindade até que essa reivindicação se torne plausível. Ela não se torna plausível até que contenha uma verdadeira semelhança com Deus, o próprio Amor. Não vamos cometer aqui qualquer engano. Nossos amores-Doação são realmente divinos; e entre os mais divinos estão aqueles mais ilimitados e incansáveis na sua entrega. Tudo que os poetas apregoam sobre eles é verdade. Sua alegria, animação, paciência, prontidão em perdoar, querer o bem do ser amado - tudo isto é uma imagem da vida divina real, praticamente adorável.
Na sua presença estamos certos em agradecer a Deus "que deu tal poder aos homens". Podemos dizer, com sinceridade e num sentido inteligível, que os que muito amam estão "próximos" de Deus. Mas, naturalmente, trata-se de "proximidade por semelhança". Ela não irá por si mesma produzir a "proximidade de abordagem". A semelhança nos foi concedida. Ela não tem qualquer ligação necessária com aquela abordagem lenta e penosa que é tarefa nossa (embora receba ajuda de alguma forma).
Nesse ínterim, entretanto, a semelhança é um esplendor. Essa a razão por que podemos tomar o termo Semelhante como Mesmo. E possível que dediquemos a nossos amores humanos a fi- delidade devida apenas a Deus. Eles então se tornam deuses: então se tornam demônios. Irão assim destruir-nos e também destruir a si mesmos.
Pois os amores naturais, quando lhes é permitido que se tornem deuses, não permanecem amores. Continuam recebendo esse nome, mas se transformam na verdade em formas complicadas de ódio. Nossos amores-Necessidade podem ser cobiçosos e exigentes, mas não se estabelecem como deuses. Não estão bastante próximos (pela semelhança) de Deus para tentar isso. Pelo que foi dito, segue-se então que não devemos jun- tar-nos nem aos idólatras nem aos "desiludidos" do amor hu- mano.
A idolatria, tanto do amor erótico como das "afeições domésticas" foi o grande erro da literatura do Século Dezenove. Browning, Kingsley e Patmore falam às vezes como se pensassem que apaixonar-se era o mesmo que santificar-se; os novelistas habitualmente contrapõem ao ‘Mundo" o lar e não o Reino dos Céus. Nós vivemos na reação contra isto. Os desiludidos estigmatizam como tolice e sentimentalismo grande parte do que os seus pais disseram em prol do amor. Eles estão sempre arrancando e exibindo as raízes lamacentas de nossos amores naturais. Mas julgo que não devemos dar ouvidos nem "ao super-sábio nem ao super-tolo gigante".
O superior não subsiste sem o inferior. A planta precisa de raízes embaixo assim como de sol em cima dela e suas raizes devem ser terrosas. Grande parte dela é terra limpa, bastando que a deixe no jardim e não se ponha a espalhá-la em cima da mesa da biblioteca. Os amores humanos podem ser imagens gloriosas do amor divino. Nada menos que isso, mas também nada mais - proximidades de semelhança que de um lado podem ajudar, mas de outro servir de impedimento, proximidade de abordagem. Algumas vezes talvez não tenham muito a ver com ela de modo algum.
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C.S. Lewis

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