terça-feira, julho 11, 2006

Confraria Calvinista

Nasci em uma família evangélica de pai, mãe, avós maternos e paternos, o que fez com que eu, muito cedo, começasse a lidar com termos bíblicos, ainda que esses termos não tivessem um significado pleno pra mim.

Um desses termos era “Igreja invisível de Cristo na Terra”. Por mais próximo que pudesse chegar desse conceito, isso não passava de pura abstração.

Era muito mais simples lidar com a realidade mais imediata como “Igreja Local”, ou a denominação, num sentido mais amplo, em função dos congressos das federações estaduais ou, mais raramente, as confederações nacionais. E somente a alguns poucos essa realidade se ampliava para um âmbito internacional. Mesmo assim, em grande parte, dentro dos limites denominacionais. Esse era o conceito mais amplo de Igreja de Cristo na Terra que minha mente poderia alcançar, ainda que continuasse uma abstração.

Entretanto, dois importantes eventos do final do século XX e início do XXI vêm impondo significativas alterações – tanto nos conceitos, quanto na realidade -, daquilo que percebemos, entendemos e experimentamos a respeito da Igreja de Cristo na Terra.

O primeiro deles seria o gigantismo amórfico que o evangelicalismo vem experimentando no mundo, em uma multiplicação quantitativa geométrica sem o correspondente crescimento qualitativo. E fomos apanhados de surpresa em uma Babel Evangélica, onde a língua falada abandonou sua referência original e imperiosa – a Palavra de Deus, ou o Sola Scriptura.


De princípio, essa diversidade se limitava às diferenças denominacionais. Até aí, tínhamos como referência o fato de sermos evangélicos e pertencermos a tal denominação, o que, em linhas gerais, subentendia uma posição teológica. Mas essa simplicidade não durou, na medida em que o tal gigantismo espalhou a sua natural deformidade conceitual, e as diferentes idéias a respeito de Deus e do Evangelho se espalharam dentro das denominações e até mesmo, dentro de igrejas locais desatentas.

Diante disto, o hermetismo denominacional se enfraqueceu, e passamos a encontrar nossos pares além das denominações. O fator agregador da Igreja deixou de ser um estatuto, mas sim as idéias, isto é, a teologia, o grau de compromisso com Deus e com sua Palavra. Mas isso já não é tão simples como antes, pois, como homens, somos limitados pelo espaço. Surge, então, para a Igreja de Cristo na Terra, um novo desafio - encontrar os eleitos onde quer que estejam para que a comunhão não seja interrompida já que o sistema denominacional deixou de garantir a qualidade dessa comunhão.

Entra em cena, então, o segundo evento ao qual me referi, e que apesar de não ser uma solução definitiva e ideal, trouxe um novo sentido para o conceito de Igreja de Cristo na Terra, reduzindo significativamente o grau de abstração desse conceito. Em meados de 1995, o Brasil entra na era da Internet. Ainda que tímida no início, hoje é uma realidade que, como qualquer veículo de comunicação, tem malefícios e benefícios. Mas não podemos deixar de admitir que somos devedores dessa nova tecnologia no que tange à comunhão dos santos na terra. Essa tecnologia solidificou a realidade de comunhão supra-denominacional, consagrando a comunhão por idéias e não mais exclusivamente por organizações.

Cabe aqui o esclarecimento de que não tenho a intenção de negar o valor das organizações, mas sim de reconhecer que as mesmas se tornaram ineficazes e insuficientes em muitos aspectos tangíveis à comunhão doutrinária.

Com essa nova realidade, podemos vislumbrar um “admirável mundo novo”, onde posso compartilhar minhas convicções doutrinárias, minhas alegrias e tristezas com irmãos que vivem a centenas ou milhares de quilômetros de distância, muitas vezes de forma mais segura e mais eficaz do que poderia fazê-lo com um vizinho do apartamento ao lado que é cristão e evangélico como eu.

Uma outra característica fascinante dessa nova realidade, sem desprezar de modo algum a doutrina eclesiástica, é a liberdade não hierárquica que o ambiente virtual produz. Semelhante a uma praia, onde médicos e garis, magistrados e estudantes, generais e soldados compartilham o mesmo espaço despidos de qualquer hierarquia externa ao ambiente onde estão, é assim que essa nova realidade se apresenta. Isso proporciona uma riqueza de manifestações, uma liberdade na admissão de dúvidas, uma singularidade na comunhão de idéias que muitas vezes não ocorreriam no ambiente em que deveriam ocorrer, isto é, na igreja local, em face de um formalismo indevido gerado pela hierarquia eclesiástica, ainda que essa hierarquia seja bíblica e, portanto, pertinente.

E é em meio a isso tudo que recebei, com surpresa e com prazer, o convite para participar do Blog Confraria Calvinista (http://www.calvinistas.blogspot.com). Com surpresa por ter sido encontrado pelo irmão Charles Grimm nessa via-láctea que é a world.wide.web. E, sobretudo, com alegria por ser esse fato mais uma confirmação de tudo o que disse antes, confirmando que estamos diante de uma nova realidade da Igreja de Cristo na Terra.

Obrigado ao Charles pelo privilégio, ao Allen, André Aloísio, André Scordamaglio, Antônio, Clóvis, Davi Eduvirges, Davi Luan, Dilsilei, Ewerton, Fabiani, Felipe Sabino (Grande Felipe), Guilherme, Gustavo, Isaías Lobão, João, Josaías, Juan, Juliana Fragetti, Lindemberg, Lucas, Norma, Renato e Samir, novos companheiros nessa empreitada que é espalhar a Palavra de Deus, e fazê-lo com o compromisso a seriedade necessária.
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1 Comments:

Blogger Charles L. Grimm said...

Pr Josemar Bessa,

Seu texto é muito interessante. De fato, o que nos une hoje são "idéias teológicas" e não mais as denominações. Eu, como membro de uma igreja batista, me sinto muito bem entre outros meios denominacionais no qual as doutrinas centrais sejam a coluna cervical de um fé que mantem os santos em pé!

Talvez, não sei quando, foi perdida esta unidade supra-racional. As confissões de fé reformadas tinham este objetivo: não de mostrar como "nós" somos diferentes de "vocês", mas sim, o quanto temos em comum. O próprio termo "denominação" foi uma criação terminólgica dos puritanos para afirmar a unidade da Igreja. Pois para eles, batista, presbiteriano, congregacional, fazia parte da mesma Igreja, ainda que de "denominação" diferente. O hermetismo denominacional talvez seja um sintoma do enfraquecimento das doutrinas fundamentais do cristianismo, dos distintivos peculiares da Reforma, enfim, da identidade genuinamente evangélica.

3:21 PM  

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