terça-feira, julho 11, 2006

O Tempo Não Nos Pode Ajudar

O PECADO nos fez coisas terríveis, e o seu efeito sobre nós é mais mortal ainda porque nascemos nele e mal sabemos o que se passa conosco.

Uma coisa que o pecado fez foi confundir os nossos valores para que tenhamos dificuldade em distinguir um amigo dum inimigo, e um ter certeza sobre o que é bom para nós e o que não é. Andamos num mundo de sombras, onde as coisas reais parecem irreais, e as coisas insignificantes são procuradas tão avidamente como se fossem feitas do próprio ouro que serve de pavimentos as ruas da Cidade de Deus.

As nossa idéias raramente se harmonizam com as coisas como são, mas sofrem distorção por uma esécie de astigmatismo que desvia tudo do foco. Por uma multidão de erros, a nossa filosofia está fora da rota, mais ou menos como seria a nossa matemática, se tivéssemos aprendido erradamente a tabuada e não soubéssemos do nosso erro.

Um falso conceito ao qual nos apegamos tenazmente, é o conceito de tempo. Imaginamos o tempo como uma espécie de substância viscosa a correr adiante como um preguiçoso rio, levando em seu seio nações, imérios, civilizações e homens. Visualizamos essa corrente pegajosa como uma entidade e a nós mesmos como irremediavelmente
grudados nela enquanto durar a nossa vida.

Ou ainda, por um simples expediente mental, retratamos o tempo como revelador da forma das coisas vindouras, como quando dizemos: "o tempo dirá". Ou o imaginamos um bondoso médico e nos animamos com a idéia de que "o tempo é um grande remédio". Isso tudo faz parte de nós a tal ponto, que seria demais esperar que o hábito de transferir tudo para o tempo poderia ser rompido algum dia. Contudo, podemos prevenir-nos contra o prejuízo que esse pensamento traz consigo.

O mais danoso engano que cometemos com freqüência ao tempo é julgar que ele de algum modo tem um misterioso poder de aperfeiçoar a natureza humana. A respeito de um jovem estulto, dizemos: "O tempo o fará mais sábio", ou vemos um cristão recém-chegado na igreja agundo como tudo, menos como cristão, e esperamos que algum dia, o tempo fará dele um santo.

A verdade é que o tempo não tem mais poder que o espaço, para santificar um homem. Na verdade, o tempo é apenas uma ficção pela qual explicamos a mudança. É a mudança, não o tempo, que transforma estultos em sábios e pecadores em santos. Ou mais precisamente, é Cristo que faz a coisa toda, por meio de mudanças que Ele opera no coração.

Saulo, o perseguidor, tornou-se Paulo, o servo de Deus, mas não foi o tempo que fez a mudança. Cristo realizou o milagre, o mesmo Cristo que uma vez transformou água em vinho. Experiência seguiu-se a experiência em rápida sucessão, até que o violento Saulo tornou-se a alma gentil e enamorada de Deus, pronto a dar a própria vida pela fé que outrora odiava. Devia ser óbvio que o tempo não participa da produção do homem de Deus.

O meu propósito ao escrever esta pequena obra não é envolver-me num exercício de semântica, mas alertar para o dano que podem sofrer por uma infundada confiança no tempo. Porque um Moisés e um Jacó perderam os impulsivos e violentos pecados da sua mocidade e na velhice se tornaram santos gentis e brandos, inclinamo-nos a tomar por conceito qu o tempo realizou a transformação. Não é assim, porém. Deus, não o tempo, produz santos.

A natureza humana não é fixa, pelo que devemos dar graças a Deus dia e noite. Ainda estamos aptos a mudança. Podemos ser transformados em algo diferente do que somos. Pelo poder do Evangelho, o ganancioso pode tornar-se generoso, o egoísta, modesto. O ladrão pode aprender a não roubar mais, o blasfemo, transbordar em louvores a Deus. Mas é Cristo que realiza tudo. O tempo nada tem que ver com tais feitos.

Muito homem perdido está adiando o dia da salvação, na vaga esperança de que o tempo está do seu lado, quando na verdade, a probabilidade de vir a ser o que deve ser diminui a cada dia. E por quê? Porque as mudanças que nele tem lugar estão endurecendo cada vez mais o seu coração.

"Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto... (Is 55.6).

Para entrar no reino de Deus, explicou nosso Senhor, o homem tem de nascer de novo(Jo 3.3-7). Ele precisa passar por uma transformação espiritual. Como o apóstolo Pedro, que lembrava aos cristãos primitivos que eles tinham sido feitos co-participantes da natureza divina e tinham fugido da corrupção que o mundo sofrera pela concupiscência.

Contudo, a mudança inicial não é a única que o homem redimido experimentará. Toda a sua vida cristã consistirá de uma sucessão de mudanças, movendo-se sempre rumo à perfeição espiritual. Para realizar estas mudanças, o Espírito Santo emprega vários meios, sendo que provavelmente os mais eficientes são os escritos do Novo Testamento.

O tempo só nos ajudará se soubermos que ele absolutamente não pode ajudar-nos. É de mudança que precisamos, e somente Deus pode mudar-nos para melhor.


A. W. T.

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